Uma campanha pela ‘máscara’ que ‘pertence’ a todos

Movimento criado pelos voluntários da corporação de bombeiros de Vila das Aves “quer garantir o futuro” da instituição, incentivando os mais jovens através de histórias contadas na primeira pessoa difundidas pelas redes sociais.

“Temos um grande problema em mãos que é continuidade do voluntariado nos bombeiros”, alerta Luís Silva, oficial dos Bombeiros Voluntários de Vila das Aves e gestor da página “Alista-te, esta farda pertence-te”, comunidade no facebook que pretende oferecer uma plataforma aos bombeiros para contar as suas histórias, na primeira pessoa, sem mediação e com isso espalhar a mensagem do voluntariado e atrair mais jovens para garantir a continuidade da corporação.

“Não é fácil cativar os jovens, já que a oferta é muito grande hoje em dia, com muitas outras coisas”, continuou. “Cativá-los a fazer centenas de horas de voluntariado anual, com o cumprimento de formações contínuas, piquete, prevenções é cada vez mais difícil”, até porque, afirma, “não há recompensa”. Pelo menos não no sentido mais óbvio da expressão. “A única recompensa é o gosto que eles possam ter por isto.”

A situação demográfica nos Bombeiros Voluntários de Vila das Aves (BVVA) não é tão grave quanto noutras corporações uma vez que, segundo Luís Silva, “a faixa etária deve rondar os 30/35 anos”, numa corporação composta por 80 voluntários, onde as mulheres representam praticamente metade do corpo voluntário.  Contudo cientes da realidade que os rodeia e do contexto das corporações um pouco por todo o país, decidirão “começar a precaver essas situações.”

O objetivo concreto, refere, é “a criação de uma escola de bombeiros ainda este ano”, no mínimo com vinte candidatos. “Nós estávamos a tentar fazer uma escola de bombeiros por ano e o número de candidatos era muito reduzido, ou seja, estávamos a fazer um investimento muito grande, quer a nível de formadores, quer a nível de equipamento, para um número reduzido de elementos”, assinalou Luís Silva. “Do histórico que temos das escolas anteriores, verificamos que que 50% daqueles que entram com vontade de ser bombeiros acaba por desistir”, esclareceu.

O que se pretende agora é “criar um grupo maior, num investimento aí sim sério, para tirar muito mais rentabilidade”, rematou o gestor da página.

Redes Sociais na primeira pessoa

“A mensagem que queremos passar é que somos voluntários, não ganhamos nada com isto, mas no fundo ganhamos muita coisa”, quem o afirma é Rita Ferreira, voluntária na corporação há uma década, desde os seus dezasseis anos de idade. “Nós sentimo-nos mesmo em casa. Vamos criando um ambiente de família, puxamos uns pelos outros e acabamos sempre por nos sentir em casa” continuou, e é essa a mensagem que se pretende passar. Cativar os mais jovens para o voluntariado não só pelo sentido de missão, mas pelas relações pessoais e o ambiente familiar.

“O essencial é mostrar aos outros aquilo que realmente somos”, sublinhou a voluntária. “Perdemos muito tempo com a família, por exemplo, mas “as palavras e o carinho das pessoas fazem-nos ultrapassar tudo e isso é muito gratificante.”

“Quando pedi aos meus colegas para escreverem um texto, não sabia o que ia sair dali”, revelou Luís Silva. “Cada um fez o seu, no seu descanso, e no final verifiquei que todos tinham algum em comum. Quase todos os testemunhos falam do sorriso que a outra pessoa dá quando nos vê. Isso é o principal, o melhor pagamento que podemos ter.”

A ideia de criar o “Alista-te, esta farda pertence-te” surgiu de uma necessidade de atrair uma faixa mais jovem para os bombeiros, daí que a utilização dos recursos das redes sociais seja fundamental na “forma fácil como a mensagem poderia chegar ao público alvo”, maioritariamente jovem, entre os 18 e os 45 anos.

Para o oficial, “a informação em primeira mão que temos hoje em dia, seja do futebol, seja da junta de freguesia, é sempre a rede social”. A partir daí o que lá colocar foi a questão que surgiu de imediato. “Vamos mostrar aquilo que realmente somos, cada um mostrar um bocadinho de si, contar a sua história e tentar cativar quem nos lê”, afirmou. Tentar passar para o outro, aqueles que estão do lado de fora, o que os move, ajudar quem está em casa a dar o primeiro passo. Porque nem sempre é fácil dar o primeiro passo.

“Este é o primeiro passo”, disse. “Mandar uma mensagem para nós através da nossa página e a partir daí cabe-nos a nós tentar criar o laço e puxar a pessoa cá, ter a primeira conversa e conhecer a realidade”, completou Luís Silva.

O dia 1

Juliana Fernandes deu o primeiro passo. Através do chat do facebook deixou uma mensagem a mostrar a sua disponibilidade, responderam-lhe e naquela chuvosa manhã de sábado, foi recebida por Luís Silva que lhe mostrou os cantos à casa e uma corporação em exercícios.

“Sempre tive aquele bichinho, queria ajudar”, contava Juliana Fernandes. “Antes não tinha possibilidades, não tinha tempo, porque sabia que se fosse para entrar para aqui não conseguiria dar o que queria dar. Mas agora consigo. Por isso, depois de ver a página do facebook, disse para mim mesma que era agora. Vai ter que ser. Contactei com o Luís e aqui estou eu.”

A estreante avense confessa que as “primeiras impressões são boas” e que depois de receber a visita guiada nunca pensou que a “casa” fosse tão grande. “Como eles dizem, é uma segunda família, uma segunda casa. Espero que assim seja para o futuro”, acrescentou.

“Estou sempre a ver quando é que eles recebem uma chamada para os ver em ação, mas felizmente ou infelizmente ainda não aconteceu”, comentou em tom jocoso, Juliana Fernandes.

A campanha que começou no final do mês de fevereiro vai estender-se até maio com o intuito de recrutar pelo menos vinte elementos para a abertura da escola de bombeiros para que esta se inicie ainda este ano. “Temos tido algumas respostas, mas ainda não chegamos ao objetivo mínimo”, clarificou Luís Silva. “Já temos mais de metade desse número, mas não queremos ficar por aí. Queremos fazer algo em grande.”

Até maio a página vai continuar a publicar os testemunhos dos bombeiros, a partilhar os episódios que fazem o quotidiano de quem é voluntário nos BVVA e daqueles que “precisaram e possam dar o feedback.” Nas palavras de Rita Ferreira, “as pessoas não conhecem a realidade porque só se ouve falar dos bombeiros durante o verão, por causa dos incêndios e esquecem-se do resto do ano, quando também é preciso.”

Para Luís Silva, se a campanha for bem sucedida, “se saírem vinte bombeiros da escola este ano, no ano seguinte quero mais vinte a campanha há de continuar, porque voluntários nunca são de mais”, sentimento corroborado por Rita Ferreira, “quantos mais formos, mais fazemos pela população”.

No final fica, o repto lançado por Luís Silva, “mesmo que não pensem em ser bombeiros venham visitar-nos, as portas estão sempre abertas, está cá sempre alguém para vos receber e quem sabe, pode dar-se o clique.”

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