Termas das Caldas da Saúde ‘veem com bons olhos’ o regresso das comparticipações do Estado

Desde 2011, ano em que terminaram as comparticipações aos tratamentos termais, a quebra nesta terapêutica foi evidente e nem com os bons ventos da economia nos últimos anos os números voltaram ao que eram. Regresso das comparticipações é boa notícia, mas tudo depende do modelo com que for implementado.

“Tivemos uma queda de 25% dos clientes termais nos anos de 2012 e 2013”, quem o afirma é Adosindo Ferreira, diretor executivo das Termas das Caldas da Saúde, que em conversa com o Entre Margens traçou o panorama da saúde termal em Portugal e o caso das Caldas da Saúde em particular.

Em comunicado posteriormente enviado, as Termas das Caldas da Saúde, esclarecem que “o anúncio do levantamento da suspensão da comparticipação dos tratamentos termais pelo Serviço Nacional de Saúde é antes de mais o reconhecimento dos seus benefícios e uma boa notícia que já tardava.”

Esses benefícios, segundo Adosindo Ferreira são de vária ordem e “por vezes difíceis de mensurar”, traduzindo-se de forma muito simplista em que as pessoas que fazem tratamentos termais “têm menos idas ao médico de família, reduzem o consumo de fármacos”, maioritariamente importados, beneficiando o Estado também porque se utilizam “mão de obra e recursos nacionais muitas vezes do interior do país, reduzindo assimetrias regionais.”

O departamento de economia, gestão e engenharia industrial da Universidade de Aveiro realizou um estudo sobre o impacto socioeconómico dos programas de saúde e termalismo sénior de 1997 a 2007, comparticipados pelos Estado. Os resultados não deixaram qualquer dúvida sobre o impacto económico positivo a todos os níveis da atividade. “Por cada euro investido para financiar o programa foram gerados na economia mais de quatro euros, a montante e a jusante da atividade.”

“Se essa era a realidade no programa de termalismo sénior, por maioria de razão a comparticipação no Sistema Nacional de Saúde (SNS)”, terá um efeito elástico ainda superior. O diretor executivo diz mesmo que “esta é a razão pela qual foi fácil convencer os políticos que que fazia sentido fazer a reposição.”

A atividade termal terapêutica é uma mais valia não só para os utentes, mas também para a economia, só que em 2011, em plena crise económica e financeira a chegada da troika obrigou a cortes profundos e “cegos” no SNS e as comparticipações aos tratamentos termais deixaram de existir.

“Em termos de clientes termais eu posso falar de cerca de 25% dos clientes que ainda não foi possível recuperar na totalidade. Neste momento estamos a recuperar esse mercado, mas ainda num patamar muito baixo. “, confessa Adosindo Ferreira.

Mais preocupante que a percentagem de clientes perdidos durante esse período de tempo é a tipologia do utente que deixou de ir fazer as curas ou tratamentos. “Muitas das pessoas que deixaram de vir, estima-se por força do fim das comparticipações, agravado pela crise económica, eram aquelas que mais precisavam.”

O crescimento do último ano abre boas perspetivas para os resultados deste ano.  “Que houve uma descida acentuada no número de clientes, é verdade. Que temos assistido a uma retoma, também é verdade. Temos boas expectativas para o ano em curso tendo em conta o crescimento que conseguimos o ano passado. A retoma das comparticipações será benéfica para o setor, também não tenho dúvidas que o será.”

A questão está no modelo que será adotado para a retoma das comparticipações por parte do Ministério da Saúde. As notícias na imprensa nacional, quer no Jornal Público, quer no Jornal de Notícias apontam que o Governo vai avançar com a medida brevemente, cumprindo com o estipulado no Orçamento de Estado.

Adosindo Ferreira coloca algumas reticencias, quer na janela temporal de implementação da medida, quer no modelo a estabelecer. “Efetivamente nós vemos com bons olhos a eventualidade da retoma das comparticipações”, começou por dizer o diretor executivo. “Julgo que não vai ser para breve, nem vai ser nos montantes que estavam a ser comparticipados [até 2011]. A revisão que está a ser trabalhada, no meu ponto de vista, será em baixa nos montantes da comparticipação”, rematou.

“O receio do secretário de Estado Adjunto e da Saúde é que haja uma corrida aos tratamentos termais” devido à proliferação de notícias sobre o assunto.

O caso das termas das Caldas da Saúde

Com origem no século XIX, propriedade do colégio de jesuítas, as termas das Caldas da Saúde dividem o seu modelo de negócio em três áreas, a terapêutica, o health club e o spa dirigidas a públicos distintos que lhes permitem ter negócio durante todo ano, época alta durante os meses de verão, época baixa durante os meses de inverno.

“Neste momento as indicações terapêuticas do balneário das Caldas da Saúde, que são comuns à maioria dos balneários em Portugal, são três: pele, vias respiratórias e reumáticas e músculo-esqueléticas”, esclareceu Adosindo Ferreira. “Para além dessas três indicações terapêuticas, nós temos a atividade no balneário divide-se em três áreas: uma terapêutica e duas de bem-estar e relaxamento”, continuou.

O cliente das termas é de tipologia variada, já que para além das curas e tratamentos, o negócio também se faz com clientes que vão às termas “para se manterem em bom estado, fazer um pouco de exercício físico, relaxar.”

“Entre clientes termais habituais estamos a falar na ordem dos 1300 a fazer uma, duas ou mais curas por ano”, a que se juntam segundo os números avançados cerca de 400 clientes que visitam as termas duas ou três vezes por semana. “Isto é possível porque estamos perto de grandes centros, numa área de influência que ronda o milhão e meio de habitantes”, onde temos uma boa penetração no mercado e onde está a grande maioria da clientela.

O mercado em expansão são as experiências, ou dito por outras palavras, o cliente ocasional que vai à procura de valor acrescentado e de algo diferente, potencial para o qual as Caldas da Saúde não estão muito vocacionadas. “Somos um balneário muito urbano, portanto, comparativamente com outras situações, não temos a capacidade de captação de utentes de longa distância”, justificou Adosindo Ferreira.

Para tal seria necessário um conjunto de investimentos à margem das termas que permitisse a captação de outro tipo de clientes, onde se inclui a questão da hotelaria, mas o diretor executivo refere que esse não pode ser um investimento das termas. “O crescimento da vertente hoteleira seria importante, claro que sim. A oferta hoteleira adicional à que existe seria bem-vinda. Que sejamos nós os promotores desses projetos não.”

As Termas das Caldas da Saúde vão proporcionar até ao fim de Abril, um desconto que na prática será equivalente à comparticipação, ainda suspensa, do Serviço Nacional de Saúde em antecipação da sua retoma por parte do Estado.

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