Os recortes de intimidade de Angel Olsen

Artista norte-americana subiu ao palco do Centro Cultural Vila Flôr (CCVF) a solo para um espetáculo de descoberta, do seu universo sónico e emocional.

Um microfone. Uma guitarra. Um amplificador. Uma mesa com a setlist e líquidos para a próxima hora e vinte de espetáculo. Angel Olsen surgiu no palco do CCVF despojada de artifícios numa noite de simples graciosidade e de comunicação intensa com o público que enchia o Grande Auditório da casa vimaranense.

A magia da norte-americana faz-se no silêncio, nas pausas, nos ritmos delicados e no humor desarmante com que vai pontuando cada canção. “Não estão à espera da rapariga que canta Shut Up, Kiss Me de peruca prateada, pois não?”, interpelou a compositora e intérprete dando o mote para o que vinha apresentar. O que Angel Olsen trouxe na bagagem neste tour europeu são recortes do seu percurso musical, canções longínquas, pedaços de melodias inacabadas encadeadas em faixas mais recentes, criando um efeito de plena imersão no seu universo simbólico.

“Sem expectativas, deixem-se ser surpreendidos”, dizia em mais um interlúdio, antes de embalar para mais um conjunto de canções de desencanto e melancolia que deixaram o público completamente rendido.

Olsen conduzia o espetáculo em estilo confessional, cada faixa, cada verso, cada nota, num acumular de contos de crescimento e descoberta. Se “My Woman”, álbum sensação de 2016, mostrou uma artista em expansão, “Phases”, coletânea de raridades que serve de mote para esta digressão, é a outra face da mesma moeda. É um ensaio sobre feminilidade, repleto de desilusão, frustração e afirmação pessoal. A destilação íntima de uma carreira.

A solo no palco do CCVF, Angel Olsen coloca as canções de “My Woman” de lado, reapropriando-se do seu imaginário passado, das faixas do primeiro EP “Strange Cacti” (2011), de “Halfway Home” (2012) e “Burn Your Fire For No Witness” (2014), despindo-as ao seu núcleo mais emocionalmente cru, deixando que a guitarra e a voz façam o seu trabalho.

Ouviu-se “unfucktheworld”, o longínquo “Some Things Cosmic” e quando alguém da audiência exclamou por “Creator, Destroyer”, Olsen diz não conseguir conjurar o lado “negro” dessa canção, partindo para uma belíssima versão de “California”. Para o final, Angel deixou um precioso presente, já no encore, despedindo-se do público vimaranense com um dos pontos altos do seu reportório discográfico, a extraordinária “White Fire”.

É a terceira vez que Angel Olsen passa pela cidade-berço sendo notório que a artista norte-americana tem um carinho especial por este espaço. E se o sentimento dos presentes valer alguma coisa, de certeza que não será a última.

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