“O que há no nome” de Ana Luísa Amaral

‘Poesia Livre’ homenageou a poetisa nortenha com edição dedicada aos versos no feminino. Autora, ensaísta e académica, feminista convicta, falou da necessidade e prazer da escrita num mundo que perdeu o sentido do humanismo.

“Escrevo porque preciso e porque me dá um profundo e enorme prazer”, confessou Ana Luísa Amaral no final da sessão que a homenageou no âmbito da iniciativa ‘Poesia Livre’, este ano dedicada aos versos e rimas de autoria feminina.

“Estou muito feliz, é uma iniciativa maravilhosa, para mim é uma honra ter sido a homenageada deste encontro, sobretudo porque se pauta pelas palavras escritas por mulheres, com temas que dizem respeito às preocupações das mulheres”, frisou a aclamada poetisa, autora de uma vasta bibliografia, maioritariamente na poesia, mas com incursões pela ficção narrativa, teatro, livros infantis e um extenso e reconhecido percurso na academia.

Feminista convicta, Ana Luísa Amaral não perdeu oportunidade de entreligar a lírica e o ato da poesia com o contexto político e social corrente, dominado pelo “neoliberalismo absolutamente desenfreado, pela descriminação, sexismo, homofobia e pelo ódio às diferenças.”

“Basta pensar no que aconteceu no Brasil recentemente”, assinalou a poetisa. “Aquela mulher foi assassinada, e ver as reações de pessoas que deveriam ter responsabilidade política quase a desculpabilizaram aquilo que foi um assassínio torpe, vergonhoso veio mais uma vez provar que em momentos de grande convulsão social, as mulheres são aquelas que continuam a sofrer mais”, concluiu.

No caos estilhaçado da sociedade contemporânea, a importância das letras e do universo simbólico é vital para o seu entendimento. O humanismo e as letras vivem tempos conturbados, encarcerados entre o seu valor “imaterial” e de mercado, numa tensão constante que têm vindo a perder, pelo menos no que diz respeito à população geral.

“O problema está quando as humanidades, a imaginação, a criação, aquilo que é visto como inútil porque não dá lucros imediatos, é colocado de lado”, elucidou Ana Luísa Amaral. “A escrita é como toda a arte, um bem imaterial, um bem da humanidade, um bem de que nós seres humanos precisamos”, continuou. “Eu iria mais longe, a poesia lírica pode funcionar como uma fortíssima fonte de resistência ao mundo em que vivemos”, disse em jeito de remate.

A poesia que se espalha

Como já é tradicional, o “Poesia Livre” juntou um conjunto de atividades que partem dos centros nevrálgicos das palavras, das bibliotecas, das salas de aula, e disseminam-se pelas ruas, pelos transportes públicos, pelos cafés e pastelarias, pelas salas de espetáculos com o intuito de abranger o maior número possível de pessoas da comunidade.

Tiago Araújo, vereador da cultura, fez um balanço positivo às atividades da edição 2018, relevando a importância da temática ser “poesia no feminino”. Segundo o vereador, “o testemunho da Ana Luísa Amaral é importante, sobretudo quando se debate a poesia no feminino, termos cá alguém com o currículo da Ana Luísa Amaral é importante para demonstrar a relevância das mulheres na história da literatura”.

Já a poeta esclareceu que “poesia livre é quase uma redundância, porque a poesia é sempre livre”, elogiando a tipologia da iniciativa: “a poesia andou por aí, espalhada pela cidade. Andou como deve andar. E não escondida pelos livros, fechada por leituras em salas.”

Em contacto com os alunos

Parte da visita de três dias de Ana Luísa Amaral a Santo Tirso, a escritora encontrou-se com alunos em várias escolas do concelho, permitindo-lhes algo que raramente lhes é possível, contactar com um autor que estudam nas aulas.

Recebida na escola secundária D. Afonso Henriques, na ultramoderna sala biblioteca, repleta de alunos do 12º ano, ao som da música produzida por dois saxofones e uma guitarra, Ana Luísa Amaral não passou despercebida. Primeiro, porque perante um cenário tecnologicamente clínico, branco, iluminado, as vibrantes cores da indumentária criavam um contraste analógico com o que a rodeava, muito simbólico.

E não demorou muito a cativar o imaginário daquelas que ouvem falar sobre a sua obra e o seu processo de trabalho. É uma contadora de histórias contagiante, que diz se lembrar das circunstâncias onde escreveu cada poema. “Eu não comecei tarde a escrever, comecei tarde a publicar”, disse em resposta a uma pergunta da audiência. Diz que vive num caos organizado e que é mais difícil para si organizar um livro, do que escrever poesia. “Um livro tem que ter coerência, um poema é apenas um poema.”

No final, por entre histórias de crescimento com a poesia e a literatura, lá citou alguns dos seus heróis, ou como quis referir-se, poetas e poemas pelos quais se apaixonou. Evocou Sophia de Mello Breyner e Emily Dickinson, entre tantos outros.

Ana Luísa Amaral diz que escreve sobre coisas, e “essas coisas podem ser preocupações de ordem social, memórias de infância, episódios do quotidiano transfigurados.” Coisas portanto. O que deseja é simples. Que “essas minhas memórias sobre as quais eu efabulo possam de alguma forma ser partilhadas por outras pessoas. Que quem leia se reveja.”

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