O Jamor que virou ‘Vila’

Tradicional convívio pré-jogo na mata do Jamor juntou gerações de avenses em ambiente de festa que até teve direito a missa dominical.

“Eu nunca acreditei viver isto”, contava ao Entre Margens Celso Campos, sócio do Desportivo das Aves, sentado na manta de piquenique da família horas antes do início do jogo. “É um momento único na vida de um adepto.”

Foi ainda de madrugada que da Vila das Aves partiram cerca de oito dezenas de autocarros em direção à capital, sem contar com os transportes particulares. Uma espécie de êxodo bíblico temporário. Durante umas horas a vila foi efetivamente no Jamor. Algo que só o futebol consegue fazer.

A mística da mata em torno do Estádio Nacional e o convívio que ela proporciona é parte fundamental da simbologia do Jamor, enquanto palco da final da Taça de Portugal. Não há final sem o churrasco de domingo, sem as merendas em malas de piquenique ou cerveja em abundância nas geleiras.

O manto vermelho que cobria os terrenos em redor do topo sul do estádio nacional era a visão de uma comunidade em uníssono. Um acontecimento perfeitamente inédito nos antros do futebol português. “É a primeira vez que uma vila não sede de concelho está aqui. Isso diz tudo”, afirmava Celso Campos. E talvez esse até seja o marco mais relevante. Uma vila que sempre se bateu pela autonomia e independência, que sempre se definiu por si própria, tinha agora algo verdadeiramente só seu.

Havia muita confiança entre os adeptos avenses. Mesmo que a seguir à expressão “vamos levar o caneco” se acrescentasse algo de efeito “estar aqui já é bom”, entre os presentes as previsões de vitória eram unânimes. Entre os mais fervorosos apoiantes e preletores do resultado final, encontrava-se o Padre Fernando Abreu.

O pároco da Vila das Aves cumpriu o prometido e celebrou a eucaristia dominical na mata do Jamor, onde incluiu cânticos de apoio ao clube do coração. “Vitória” disse sem hesitação quando abordado pelo Entre Margens. “Por mais que diplomaticamente se diga que o que se passou com o Sporting é-nos indiferente, se fosse treinador, psicologicamente, aproveitava”, comentou no seu tom habitual.

Fernando Abreu, que durante a semana fora notícia pelas quadras de apoio ao Aves revelou ao Entre Margens, em primeira mão, horas antes do jogo, a quadra que tinha composto durante as cinco horas de viagem para a eventualidade do Desportivo vencer a competição.

“Parabéns José Mota,

Foste bom treinador,

Ao leão a derrota

E o Aves vencedor.”

O destino parecia traçado. Com ou sem intervenção divina, o Desportivo das Aves venceu mesmo a Taça de Portugal.

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