Nó do Barreiro ‘desata’ no final de maio

 

Empreitada que deveria estar concluída em janeiro, tem agora conclusão anunciada para o final de maio, sendo o atraso atribuído a questões técnicas. Oficina da Rua D. Maria II pode não ver o final das obras.

É uma história com capítulos intermináveis cujo final, anunciado é certo, vê agora a luz um pouco mais à distância. A construção da tão desejada quanto polémica rotunda do Barreiro, tem mais capítulo para contar. O prazo previsto e contratualizado para a sua conclusão da obra expirou em janeiro. Maio é a nova data apontada.

Contactada pelo Entre Margens, a Câmara Municipal de Santo Tirso justifica o atraso de cinco meses na empreitada com “questões técnicas”, nomeadamente “as condições climatéricas” durante os meses de inverno que dificultaram a progressão dos trabalhos, sendo ainda citados os “problemas com as condutas de água e cabos de telecomunicações” que obrigaram a cuidados redobrados, pois só depois de abertos os rasgos foram possíveis detetar. No total são cinco meses mais de trabalhos e de tudo o que isso significa na vida dos automobilistas, residentes e comerciantes da área.

Caso tipo é a oficina “Pneus Escapes Pedro”, situada na Rua D. Maria II, há meses com o trânsito condicionado devido às movimentações das máquinas e do alargamento que está a receber. Pedro Magalhães é proprietário do negócio há uma década, todavia, segundo nos conta, não por muito mais tempo.

“Mais dois meses e fecho. Não chego às férias, a continuar assim”, afirmava resignado em conversa com o Entre Margens no seu local de trabalho. Naquele dia, uma tarde chuvosa de fevereiro, a rua com o trânsito condicionado, estava vazia. Máquinas não se viam, trabalhadores também não. Os únicos carros encontravam-se parados em frente aos portões da oficina onde Pedro Magalhães e dois clientes conversavam.

“Sinto-me completamente sozinho. Estou sozinho porque sou o único prejudicado desta situação”, dizia-nos. “Nunca me disseram nada. Nem que vamos fazer, ou que vamos começar”. Desde setembro que a Rua D. Maria II que liga a Casa do Povo do Rio Vizela à EN-105, desaguando no nó do Barreiro propriamente dito, tem a circulação automóvel condicionada. E o impacto nota-se no balanço financeiro. “Perdi 75 por cento do negócio de setembro a dezembro.”

“Isto está muito mal conduzido em termos das obras. Três ou quatro pessoas a trabalhar não chega”, ouvia-se na voz de um dos clientes. “Falta de bom senso e gosto pelo comércio”, referia outro. Ambos não quiseram ser identificados para a reportagem.

Estes meses têm sido uma aventura pouco agradável para Pedro Magalhães. Não obstante a limitação de circulação que estrangulava o negócio, o controlo apertado da GNR aos veículos que circulavam no local era traduzido em multas, dissuadindo ainda mais os clientes. Isto apesar de existir uma informação à face da estrada nacional que concedia passagem até à oficina.

Os acontecimentos atingiram o ponto de ebulição aquando da abertura dos rasgos em frente aos dois portões da oficina. Com carros de clientes ali estacionados, Pedro Magalhães recusou-se a retirar os veículos, não permitindo que a obra avançasse, sendo a GNR chamada ao local. “Fui levado pela GNR para o posto onde me foi informado que tinha que retirar os carros e deixar a obra continuar.”

Depois desse incidente, Pedro Magalhães foi informado que devia enviar uma carta dirigida ao presidente da câmara com os prejuízos que está a ter. “Fui pessoalmente à câmara deixar uma carta dirigida ao presidente a demonstrar o prejuízo e a dizer que estava em risco de fechar porque não ganhava para as despesas.” Até hoje não tenho resposta.

Em dezembro decidiu consultar um advogado que desde então já enviou três missivas que não obtiveram resposta. “Eu fecho, não tenho hipótese.”

Aquelas garagens são local de comércio desde sempre. Há pelo menos quatro décadas que acolhem negócios ligados aos automóveis. São um pedaço de simbologia local que pode desaparecer.

Para Pedro Magalhães o problema aqui não está na obra em si, que diz, “ser necessária e importante”. A questão aqui levantada é a falta de comunicação e relação consigo enquanto comerciante. “Eu fiquei a saber que as obras estavam a começar pelo facebook do presidente da junta (de São Tomé de Negrelos)”.

Em relação ao autarca da freguesia, um único comentário. “O senhor presidente da junta só passa e dá palmadinhas nas costas a dizer aguenta que isto vai ficar bonito e vais ganhar muito dinheiro.”

Hoje vê o futuro muito complicado. “Nunca tive dívidas e agora começo a ter, por exemplo à segurança social”, confessava-nos com trémulo na voz. “Tenho sobrevivido do exemplo de vida que tenho dado às pessoas nos últimos dez anos. Nunca fui rico, mas cumpri sempre com as minhas responsabilidades. E agora não tenho dinheiro.”

Em dezembro de 2016, durante a apresentação do projeto falou-se de sonhos e utopias, porque finalmente o problema do Barreiro ia ser resolvido. A contestação que surgiu nessa altura tinha como rosto os comerciantes e moradores da rua do Espírito Santo. Mas, Pedro e a sua oficina são apenas um. Alguém em risco de perder o seu método de sustento sem que lhe dirijam uma palavra.

Esta é uma obra emblemática, desejada e reclamada há décadas. Foi colocada a concurso por um valor ligeiramente superior a 940 mil euros tendo sido adjudicada por pouco mais de 700 mil, sendo que os trabalhos se iniciaram em agosto passado. Está prevista a sua conclusão em definitivo em maio de 2018.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.