De 1969 a 2018, as memórias do primeiro CD Aves – Sporting

O Desportivo das Aves bateu-se de igual para igual e assustou os leões. José Simão, o homem do jogo, recorda ao Entre Margens um jogo memorável.

A leitura de Diário de Lisboa do dia 10 de fevereiro de 1969 é perfeitamente esclarecedora sobre o susto porque passaram os leões, que ainda traziam na memória uma eliminatória perdida em Santo Tirso, vinte anos antes e que tiveram de lidar com “o jeito que os locais sempre tiveram de, na retaguarda, lutarem de igual para igual e, no meio campo, levarem vantagem. Miranda e Simão, sobretudo este, fizeram gala de mostrar que o saber de futebol já não é só apanágio de uns tantos”. E mais, “o Sporting encontrou pela frente o que certamente não esperava: uma equipa. E uma equipa equilibrada, a jogar com sequência, servida, é certo, por três ou quatro jogadores de bom valor.” O jogo terminou com a vitória dos leões por duas bolas a zero mas, escreveu o cronista lisboeta, “o resultado não espelha o equilíbrio de jogo. Equilíbrio feito não só à base de brio como também de saber”.

O Entre Margens procurou Simão para relembrar esse jogo memorável, ocorrido na primeira vez que o Desportivo das Aves participou na Taça de Portugal e a primeira lembrança foi direitinha a um penalty, em falta cometida sobre ele próprio, que ficou por assinalar. O Aves disputava a terceira divisão nacional e já tinha eliminado o Torres Novas, da segunda divisão, em eliminatória renhida com direito a dois jogos, ambos como prolongamento. A vinda do Sporting foi um acontecimento. Dizem as crónicas que Lima, avançado do Aves, foi o “homem do quase golo”, tantas as oportunidades que falhou frente ao famoso Damas, guarda-redes do Sporting.

Simão lembra desse jogo que sentiu que a velocidade de jogo do Sporting era diferente daquilo a que estavam habituados e que tiveram de “dar o litro”. Como uma final como esta que o Aves agora vai disputar é uma coisa a que se não volta mais, vale a pena “dar o litro”. E foi sugerindo a repetição da tática usada há quase cinquenta anos: “tínhamos que procurar não deixar fazer aquilo que eles queriam fazer. Assim, uma equipa mais fraca pode ganhar o jogo.” E rematou: a força de vontade conta muito e por isso tudo é possível no próximo domingo.

José Simão Ferreira que tem atualmente 75 anos e vive em S. Mamede de Negrelos, revela alguma mágoa pela falta de sorte em termos de carreira desportiva, pois foi por pouco que não foi parar à Académica de Coimbra, no início da carreira do treinador José Maria Pedroto, o que lhe poderia ter possibilitado estudar para professor. Falou-nos da sua participação na formação de futebolistas no S. Martinho e no futebol de salão de S. Mamede e revelou-nos a sua faceta de poeta popular que não teve oportunidade de reunir em livro os seus “sentidos do dia-a-dia”.

Simão, o poeta, recorda em quadra dedicada à Vila das Aves: “Em tempos por ti lutei/ Em tempos por ti sofri./Se te lembras de mim, não sei/Mas sei que não te esqueci.” E também não esquece o carinho que sempre teve da parte dos adeptos do Aves que, afinal, por alguma coisa era: “eu era um jogador jeitozito”.

Simão é o primeiro da esquerda, em pé, a seguir aos guarda-redes

(alterado em 19/05 – adicionadas 2 fotos)

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