ENGANA-ME QUE EU GOSTO

Do AMOR, sei apenas o muito pouco que as curvas e as pedras do meu caminho me foram sussurrando.

Mas a enjoativa cantilena delico-doce de reduzir o AMOR ao amor expresso, ao amor instantâneo, à química, à primeira vista, à alma gémea, que muito de mansinho nos vem sendo impingida subliminarmente, primeiro pelas revistas mais ou menos marias e pelos muitos e mui sapientes Doutoras e Doutores do amor, provoca-me, cada vez mais, uns assanhados e frequentes surtos de brotoeja.Tira-me completamente do sério a leveza com que estes iluminados ditam a morte de um amor, só porque a chama esmoreceu, o sexo deixou de ser explosivo, ou porque os trancos e solavancos do caminho abanaram o paraíso.

E por isso, e por uma vez sem exemplo, este sapateiro subirá acima da sua chinela.

É claro que a química, a atracção, a primeira vista são um extasiante e feérico fogo, onde todos gostamos de nos queimar. Fogo que nos alcandora a extasiantes paraísos, que nos arrebata e nos faz acreditar que é desta, que é mesmo desta que a eterna felicidade nos foi destinada… Fogo que nos faz crer que a partir dali tudo será veludo, amor, felicidade e prazer. Fogo que nos queima a lucidez e nos faz acreditar que Marte pode ser Vénus. Fogo que nos encandeia e cega e nos impede de enxergar que nem nos sonhos este tipo de paraísos perduram…

A química, a atracção, a primeira vista serão sempre a centelha, a faisca, a chispa de um fogo que será sempre fátuo, se não for apresigado com paciente e porfiado empenho.

O AMOR é assim uma espécie de abacadabra celestial que funde dois seres num só, sem que estes deixem de ser dois. É assim como viver a própria vida, vivendo na vida do outro. É como dançar um tango a dois, ouvindo cada um a sua orquestra.

O AMOR, tal como a maioria das coisas de real valia, é parido com suor e dor, é uma constante batalha entre o eu, o tu e o nós, entre o uno e o diverso, entre a extasiante complementaridade e a fatal diferença. Ele é, enfim, a definição por excelência da insanável quadratura do círculo…

O AMOR é enfrentar o rotineiro e entediante quotidiano, a luta do dia a dia, a educação dos filhos, a carreira profissional; equilibrar, respeitar e acomodar as diferenças de visão, de opinião, de feitio e de temperamento e mal-grado tudo isso, conseguir manter a chama viva.

Ora esperar que esta via crúcis prospere e perdure por obra e graça de um simples olhar, de um clique, ou de uma químíca é como esperar que as andorinhas cantem no Natal, ou que o Presidente Marcelo fique sem palavras…

Pretender que o AMOR seja sempre paixão e fogo é uma dolorosa e perigosa falácia, que pode levar ao assassínio sumário de relações viáveis, só porque o fogo já não aquece como dantes… Pior que isso, pode levar uma e frustante caça aos gambozinos, a uma busca desesperada de uma relação que garanta uma permanente e constante paixão escaldante.

A verdade é que o AMOR é um fogo que só arde com suor. Mas nós gostamos de acreditar que há algures um que nos está destinado, uma alma gémea que nos espera ansiosa. Queremos crer que, encontrada a alma gémea, o AMOR e o paraíso que o acompanha está garantido para todo o sempre, sem mais canseiras.

E é por isso que os Doutores e Doutoras do amor prosperam, e mesmo os mais descrentes lá lhes vão dando uma disfarçada espreitadela.

Pela parte que me toca, se me garantissem o AMOR sem suor, eu até lia de fio a pavio um ano inteiro de revistas maria.

Pois, engana-me que eu gosto…

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *