S. Francisco e a Misericórdia

felisbela

(Publicado na edição 570, de 3 de novembro de 2016, do Entre Margens)

No dia 3 de outubro, a minha família ficou mais rica com o nascimento, algo prematuro, do Francisco. Desta coincidência do nome com a data festiva –  800 anos da morte de S. Francisco – neste ano que o Papa Francisco escolheu para o Jubileu da Misericórdia, surgiu-me a ideia deste tema.

Várias foram as circunstâncias, por que passou Francisco de Assis, grande santo da Igreja Católica, que o levaram a  operar profundas mudanças na sua vida, renunciando à riqueza, aos prazeres da juventude e retirando-se para um sítio ermo para meditar , respondendo ao chamamento de Deus, o que não lhe foi fácil, quer pelas dúvidas que o assaltavam, quer pela oposição de seu pai, bem como pelo desprezo a que  a sociedade o votava. Um dia, saindo em passeio, ouviu o chocalho anunciador da presença de leprosos e encontrou-se frente a frente com um deles. Desceu do cavalo e, vencendo a sua relutância, abraçou-o e cobriu-o com o seu manto, facto que até a ele próprio surpreendeu. A propósito deste acontecimento, diz: Deus, Nosso Senhor quis dar a sua graça a mim, o irmão Francisco, para que começasse a fazer penitência; porque, quando eu estava em pecado, parecia-me muito amargo dar com os olhos nos leprosos; mas o mesmo Senhor, um dia, me conduziu para o meio deles e com eles usei de misericórdia.

Terá sido este encontro  que o levou a uma vida nova, como resposta à voz de Cristo, que tinha ouvido de um crucifixo na igreja de S. Damião, pedindo-lhe que reconstruisse a sua Igreja. Naquele leproso, ele viu a imagem do Crucificado que lhe falara. Essa experiência de conversão desencadeia e consolida o seu trabalho com outra seriedade: primeiro, no restauro da sua própria interioridade; e, depois, no restauro da verdadeira Igreja do Senhor.

Mais tarde, numa Carta enviada a um Ministro, diz: Que não haja no mundo, nenhum irmão que, por muito que tenha pecado e venha ao encontro de teu olhar pedir misericórdia,  se vá de ti sem o teu perdão. E se não vier pedir misericórdia, pergunta-lhe tu se a quer. E que sempre te enchas de compaixão por esses desgraçados.”

Em Francisco de Assis, a misericórdia tem um alcance extraordinário. Refere-se sobretudo ao amor-compaixão que abarca o ser humano e todas as criaturas. Soube acolher a misericórdia de Deus. Soube amar o próximo de maneira incondicional. Soube viver o perdão de forma densa e profunda. Reconheceu  a acção do Senhor na sua vida e na daqueles que sabem perdoar. E por isso louvou e agradeceu com o “ Cântico das Criaturas” [1]Também, hoje,  o Papa Francisco – que adotou este nome, pela sua  devoção ao santo – nos lembra, a cada momento (nas suas orações, nas suas reflexões sobre os acontecimentos do nosso tempo) a necessidade de sermos misericordiosos, de amarmos todas as criaturas. Na senda de S. Francisco, preocupa-se com os mais pobres, os fragilizados, os abandonados, que todos devemos acolher e amar como irmãos; e fala da Natureza como a nossa casa comum que a todos compete cuidar.

Termino com um expressivo poema de Nazim Hikmet, que nos interpela na nossa  misericórdia para com todas as criaturas, enfatizando o amor ao próximo:

Não vivas sobre a terra como um estranho/ um turista no meio da natureza./Habita o mundo como a casa do teu pai./Crê na semente, na terra, no mar,/mas acima de tudo crê nas pessoas./Ama as nuvens,/as máquinas,/os livros,/mas acima de tudo ama o homem/

Sente a tristeza do ramo que murcha,/do astro que se extingue,/do animal ferido que agoniza,/mas acima de tudo sente a tristeza e a dor das pessoas.

Alegra-te com todos os bens da terra,/com a sombra e a luz,/com as quatro estações,/mas acima de tudo e a mãos cheias, alegra-te com as pessoas.

 

[1] cfr Revista Bíblica de set/out de 2016

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